
Queijo da Serra está ameaçado"Estou a ficar sem forças e o queijo está cada vez menos rentável. Por isso, o mais provável é acabar com a produção", o desabafo do pastor António Simão espelha o sentimento dominante entre os produtores do queijo Serra da Estrela, uma actividade com o futuro cada vez mais em risco devido à falta de apoios, de mão-de-obra – sobretudo de pastores – e ao constante aumento dos custos de fabrico.
António Simão, de 48 anos, e Maria Odete, de 45, proprietários de uma queijaria tradicional em São Romão, Seia, são dos poucos na região que acompanham todo o processo de produção de queijo – desde o pastoreio das 400 ovelhas bordaleiras até à venda no domicílio.
Levantam-se diariamente às 06h00 para fazer a primeira ordenha, "quer chova ou caia neve". Depois, enquanto António – auxiliado pelo Leão e a Farrusca (dois cães da Serra da Estrela) – guia e vigia o rebanho pelos pastos, Maria fica no rés-do-chão de casa a fazer queijo com o leite recolhido de madrugada. Quarenta litros dão para seis/sete queijos.
A meio da tarde, António regressa com o rebanho e, após um descanso de três horas, os animais são sujeitos à segunda ordenha do dia. A seguir ao jantar, Maria desce de novo à sala de produção e faz mais sete queijos. "Há quatro anos fazia 30 por dia, agora só faço metade", lamenta Maria Odete, também ela cansada de uma tarefa "saturante" que impede o casal de conhecer o "outro mundo" para lá das encostas da Serra da Estrela.
"Há 23 anos que não fazemos outra coisa. Não podemos sair daqui, nem para visitar a nossa filha em Lisboa. No mês passado, o meu marido esteve três dias internado no hospital e foi um cabo dos trabalhos", refere a queijeira, que entrou no sector depois da fábrica têxtil onde trabalhava ter falido.
Esta é a forma de vida das pessoas que conseguem manter viva uma tradição milenar, mas que tem o futuro comprometido, como explica António Simão. "Os custos de produção – ração, gasóleo, energia e impostos – são cada vez mais elevados e o preço do queijo, ao contrário, está a baixar. Hoje vendemos o quilo a 12,50 euros – há cinco anos era a 18 – por causa de alguns produtores que não conseguiam vender o queijo de menor qualidade. Nós, que produzimos queijo certificado, tivemos que acompanhar a descida", conclui António Simão.
"PATRIMÓNIO VIVO A MANTER"
O envelhecimento dos produtores de queijo, a inexistência de pastores e o desinteresse dos jovens pelo sector está a preocupar a Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE). "É um património vivo que é preciso manter e que não se pode deslocalizar", adianta João Madanelo, engenheiro da ANCOSE, salientando que na última década o sector teve de se adaptar às normas da União Europeia. Os agricultores foram confrontados com muitos problemas burocráticos e o aumento de encargos, que os fizeram desistir. O engenheiro reconhece que vender o queijo abaixo dos 15 euros "não dá sustentabilidade ao sector".
AUTARCAS RECLAMAM APOIO NA UNIÃO EUROPEIA
Conscientes de que o sector dos lacticínios é extremamente importante para a economia regional, os autarcas da região da Serra da Estrela apelam ao Governo para "apoiar a sério" os produtores. José Miranda, presidente da Câmara de Fornos de Algodres, não tem dúvidas de que, "se não houver apoios do actual quadro comunitário de apoio", dentro de 20 anos "não vai haver gente a fazer queijo". "Este produto é uma mais-valia para a região, do qual dependem milhares de famílias", adianta o autarca. Na mesma situação está Penalva do Castelo (Viseu) onde existem 40 produtores, a maioria com idades a rondar os 70 anos. "Esta crise pode levar muita gente a encontrar alternativas de trabalho. Há espaço no mundo rural para novos trabalhadores", afirma Leonídio Monteiro, presidente da autarquia.
NOVE FEIRAS
PROGRAMA
Até meados de Março, realizam-se nove feiras de promoção de queijo. Hoje é a primeira, em Penalva do Castelo. Seguem-se Fornos de Algodres (dia 8), Celorico da Beira (20), Gouveia e Manteigas (de 20 a 24), Seia (21), Trancoso (29 a 2 de Março), Oliveira do Hospital e Tábua (14 de Março).
ANIMAIS E ANIMAÇÃO
Os certames são aproveitados para vender ovelhas e cães da raça Serra da Estrela. Além dos petiscos, os visitantes podem assistir a festivais de folclore e actuação de bandas.
A 12,50 EUROS
O quilo do queijo custa 12,50 euros e será esse o valor a praticar nas feiras. O certificado custa mais 2,50 euros.
SEIS LITROS PARA UM
São necessários seis litros de leite para se fazer um queijo da Serra da Estrela com um quilo.
NÚMEROS
15 MILHÕES DE EUROS
A produção de queijo e criação de gado na região da Serra da Estrela gera por ano 15 milhões de euros de mais-valias.
TRÊS MIL EXPLORAÇÕES
Segundo a ANCOSE há três mil explorações agrícolas, que se dedicam à produção de queijo.
MIL TONELADAS
Por ano os agricultores produzem mil toneladas de queijo. Apenas uma pequena parte é certificada.
120 MIL OVINOS
Na região da Serra da Estrela há 120 mil ovelhas. Há quatro anos eram 150 mil.
FASES DA PRODUÇÃO
1 - Ordenha - Leite retirado à mão ou com máquinas.
2 - Transporte - É levado para a sala de produção.
3 - -Coagulação - Com cardo e sal, passa-se num pano de algodão. Fica hora e meia em banho-maria.
4 - Feitura - O queijo é moldado e fica sem soro.
5 - Prensa - Numa forma é prensado durante três horas.
6 - Estágio - Fica quase dois meses em câmaras.
7 - Venda- Finalmente é vendido
António Simão, de 48 anos, e Maria Odete, de 45, proprietários de uma queijaria tradicional em São Romão, Seia, são dos poucos na região que acompanham todo o processo de produção de queijo – desde o pastoreio das 400 ovelhas bordaleiras até à venda no domicílio.
Levantam-se diariamente às 06h00 para fazer a primeira ordenha, "quer chova ou caia neve". Depois, enquanto António – auxiliado pelo Leão e a Farrusca (dois cães da Serra da Estrela) – guia e vigia o rebanho pelos pastos, Maria fica no rés-do-chão de casa a fazer queijo com o leite recolhido de madrugada. Quarenta litros dão para seis/sete queijos.
A meio da tarde, António regressa com o rebanho e, após um descanso de três horas, os animais são sujeitos à segunda ordenha do dia. A seguir ao jantar, Maria desce de novo à sala de produção e faz mais sete queijos. "Há quatro anos fazia 30 por dia, agora só faço metade", lamenta Maria Odete, também ela cansada de uma tarefa "saturante" que impede o casal de conhecer o "outro mundo" para lá das encostas da Serra da Estrela.
"Há 23 anos que não fazemos outra coisa. Não podemos sair daqui, nem para visitar a nossa filha em Lisboa. No mês passado, o meu marido esteve três dias internado no hospital e foi um cabo dos trabalhos", refere a queijeira, que entrou no sector depois da fábrica têxtil onde trabalhava ter falido.
Esta é a forma de vida das pessoas que conseguem manter viva uma tradição milenar, mas que tem o futuro comprometido, como explica António Simão. "Os custos de produção – ração, gasóleo, energia e impostos – são cada vez mais elevados e o preço do queijo, ao contrário, está a baixar. Hoje vendemos o quilo a 12,50 euros – há cinco anos era a 18 – por causa de alguns produtores que não conseguiam vender o queijo de menor qualidade. Nós, que produzimos queijo certificado, tivemos que acompanhar a descida", conclui António Simão.
"PATRIMÓNIO VIVO A MANTER"
O envelhecimento dos produtores de queijo, a inexistência de pastores e o desinteresse dos jovens pelo sector está a preocupar a Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE). "É um património vivo que é preciso manter e que não se pode deslocalizar", adianta João Madanelo, engenheiro da ANCOSE, salientando que na última década o sector teve de se adaptar às normas da União Europeia. Os agricultores foram confrontados com muitos problemas burocráticos e o aumento de encargos, que os fizeram desistir. O engenheiro reconhece que vender o queijo abaixo dos 15 euros "não dá sustentabilidade ao sector".
AUTARCAS RECLAMAM APOIO NA UNIÃO EUROPEIA
Conscientes de que o sector dos lacticínios é extremamente importante para a economia regional, os autarcas da região da Serra da Estrela apelam ao Governo para "apoiar a sério" os produtores. José Miranda, presidente da Câmara de Fornos de Algodres, não tem dúvidas de que, "se não houver apoios do actual quadro comunitário de apoio", dentro de 20 anos "não vai haver gente a fazer queijo". "Este produto é uma mais-valia para a região, do qual dependem milhares de famílias", adianta o autarca. Na mesma situação está Penalva do Castelo (Viseu) onde existem 40 produtores, a maioria com idades a rondar os 70 anos. "Esta crise pode levar muita gente a encontrar alternativas de trabalho. Há espaço no mundo rural para novos trabalhadores", afirma Leonídio Monteiro, presidente da autarquia.
NOVE FEIRAS
PROGRAMA
Até meados de Março, realizam-se nove feiras de promoção de queijo. Hoje é a primeira, em Penalva do Castelo. Seguem-se Fornos de Algodres (dia 8), Celorico da Beira (20), Gouveia e Manteigas (de 20 a 24), Seia (21), Trancoso (29 a 2 de Março), Oliveira do Hospital e Tábua (14 de Março).
ANIMAIS E ANIMAÇÃO
Os certames são aproveitados para vender ovelhas e cães da raça Serra da Estrela. Além dos petiscos, os visitantes podem assistir a festivais de folclore e actuação de bandas.
A 12,50 EUROS
O quilo do queijo custa 12,50 euros e será esse o valor a praticar nas feiras. O certificado custa mais 2,50 euros.
SEIS LITROS PARA UM
São necessários seis litros de leite para se fazer um queijo da Serra da Estrela com um quilo.
NÚMEROS
15 MILHÕES DE EUROS
A produção de queijo e criação de gado na região da Serra da Estrela gera por ano 15 milhões de euros de mais-valias.
TRÊS MIL EXPLORAÇÕES
Segundo a ANCOSE há três mil explorações agrícolas, que se dedicam à produção de queijo.
MIL TONELADAS
Por ano os agricultores produzem mil toneladas de queijo. Apenas uma pequena parte é certificada.
120 MIL OVINOS
Na região da Serra da Estrela há 120 mil ovelhas. Há quatro anos eram 150 mil.
FASES DA PRODUÇÃO
1 - Ordenha - Leite retirado à mão ou com máquinas.
2 - Transporte - É levado para a sala de produção.
3 - -Coagulação - Com cardo e sal, passa-se num pano de algodão. Fica hora e meia em banho-maria.
4 - Feitura - O queijo é moldado e fica sem soro.
5 - Prensa - Numa forma é prensado durante três horas.
6 - Estágio - Fica quase dois meses em câmaras.
7 - Venda- Finalmente é vendido
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